Esta coluna é atualizada aos Domingos
Foi Bette Davis quem primeiro disse: “Eu interpreto com os olhos”. De fato, a atriz passava para a câmera através do olhar o estado de espírito da personagem. Interpretar com os olhos, não significa, obviamente, arregalar os olhos, como faz Regiane Alves (Joana) em Beleza Pura. Esse recurso, quando mal utilizado, torna-se artificioso, particularmente quando não se tem talento ou a sensibilidade para expressar sentimentos através do olhar.
O olhar neutro
Ingrid Bergman confessou na autobiografia que o papel de Casablanca lhe foi especialmente difícil. Como o roteiro ia sendo escrito durante as filmagens e por desconhecer o final da história, ela não sabia se terminaria com o amante (Humphrey Bogart) ou o marido (Paul Henreid). O seu maior problema era o olhar. E, por causa da dúvida, adotou o olhar neutro no terço final do filme, quando o marido reaparece, formando o triangulo amoroso.
A coerência do olhar
Patrícia Pillar não teve o problema da dúvida que deixou a disciplinada e metódica Ingrid Bergman angustiada. Pois, conforme revelou, após a primeira semana de exibição de A Favorita, o autor, João Emanuel Carneiro, comunicou-lhe (e a Claudia Raia) que havia se decidido pela culpabilidade de Flora. A revelação, mantida em segredo para os demais membros do elenco, não alterou o modo de interpretar de Flora na primeira fase da novela. O seu olhar, assim como a postura física e o tom de voz, ajustava-se com perfeição ao papel de uma heroína vitimada por uma conspiração e um erro jurídico. A interpretação de Patrícia Pillar foi tão convincente que para o telespectador não havia duvida de que Flora era inocente.
A mudança do olhar
Entretanto, para quem tem olho aguçado pela experiência cinematográfica, foi possível perceber, nos capítulos que antecederam à revelação, uma sutil mudança no olhar de Flora. Mudança extensiva a um igualmente sutil, mas mutante, jogo fisionômico. Nessa altura, já sabíamos que Donatela não era culpada, e, se não houvesse um inesperado e oculto terceiro personagem, Flora era a assassina. Mas, contrariando a fórmula de alguns romances de mistério, fórmula que Agatha Christie adotava com perfeição, João Emanuel Carneiro mostrou o reverso da medalha.
A vítima era a vilã
Essa opção exigiu muito de Patrícia Pillar. Equivale à outra volta do parafuso, onde de repente, aquilo que se estava vendo pelo buraco da fechadura do quarto fechado, não corresponde à realidade. Para o telespectador representava uma inesperada e dura reversão de expectativa – equivalente à traição de alguém em que você acreditava. Não é fácil, principalmente quando se é física e emocionalmente delicada e afetuosa como Flora, o telespectador passar a vê-la como uma criminosa calculista, fria e implacável. Com a mesma competência com que vestiu a pele de cordeiro, Patrícia Pillar começou a mostrar o lado negro da personalidade de Flora. Mas, essa metamorfose exigiu uma dificuldade adicional: a necessidade de continuar alternando os papéis da rã e do escorpião, pois, para Irene, Gonçalo e Lara ela continua sendo a vitima. Pela dificuldade do papel e complexidade psicológica de Flora, pode-se dizer sem exagero que Patrícia Pillar alcançou em A Favorita o nível de interpretação das grandes atrizes do cinema brasileiro e estrangeiro.
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